domingo, 31 de julho de 2011

Sobre o raciocínio ético: a forma (Parte 1)

Bom dia!

Gostaria de compartilhar 
com todos aqui (enfim!) o tão esperado artigo intitulado "Sobre o raciocínio ético", que será dividido em 7 partes (7 postagens). Considero-o de indispensável leitura, pois, como nosso amigo Luciano Cunha já havia concluído na postagem anterior, "Nossos sentimentos podem ser apenas produto de nossos preconceitos (ou podem ser realmente sentimentos éticos, mas só podemos descobrir isso se fizermos uma análise racional visando eliminar possíveis preconceitos)."

Dessa forma, se estamos realmente interessados em agir da forma correta, é preciso darmos mais atenção ao que a razão tem a dizer sobres as questões éticas, inclusive sobre a reflexão proposta neste blog (
na postagem intitulada "O que há de errado com o especismo???"): como (com qual coerência) nós podemos respeitar a vontade que uns (os animais humanos) têm em continuar vivos e aproveitar a vida, e, ao mesmo tempo, desrespeitar essa mesma vontade em outros (os animais não-humanos sencientes que, assim como nós, também querem continuar vivos e desfrutar a vida)??? 
 
Boa reflexão e até a próxima!!!


Abraços!

Bruno 

 
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Sobre o raciocínio ético: a forma (Parte 1)
 
Por Luciano Carlos Cunha*

Nas colunas anteriores, vimos que a existência de um lugar para a razão na ética faz com que esta deixe de ser relativa, subjetiva ou meramente emocional. Contudo, não falamos nada sobre como a razão pode ajudar a conhecermos o conteúdo do que é o correto, o dever, o justo, etc. Muito comumente é perguntado: “mas, a razão também não pode ser usada para fazer o mal?”. Pretendo resumir nessa coluna algumas características necessárias para que se possa dizer que um raciocínio é ético (em oposição ao raciocínio não-ético: instrumental ou prudencial, por exemplo). A partir desses critérios, poderemos ver como é possível colocar a ética em termos objetivos. Não pretendo aqui listar todos os critérios, mas somente os principais. Portanto, a lista permanece em aberto para o eventual acréscimo de critérios que possam refinar a forma do raciocínio. Vale lembrar que todos os critérios listados são necessários (ou seja, a decisão, para ser ética, não basta que cumpra apenas um ou alguns deles; precisa cumprir todos).

Antes de listarmos os critérios é importante falar sobre dois conceitos que estarão em quase todas as discussões da ética: agente moral e paciente moral. Nem todos os autores definem esses conceitos da mesma forma, e eu vou adotar aqui uma definição particular que permite distinguir alguns aspectos importantes. Os agentes morais são aqueles indivíduos a quem cabe cumprir o que a ética prescreve. Por possuírem entendimento racional dos critérios a seguir, podem ser responsabilizados pelo que escolhem. Os humanos adultos normais, pelo menos, se enquadram nessa categoria. Daí vem a idéia de aplaudir alguém que fez algo correto ou repreender alguém que fez algo errado. Pacientes morais, por outro lado, por não possuírem compreensão intelectual dos critérios a seguir, não podem ser responsabilizados pelas suas ações (nem aplaudidos nem culpados). Contudo, podem sofrer conseqüências benéficas ou maléficas de acordo com o que os afeta (por exemplo, decisões dos agentes morais). Portanto, se os agentes morais são aqueles que devem se preocupar com suas decisões, os pacientes morais são aqueles com quem os agentes devem se preocupar quando tomam as decisões. Estão no grupo dos pacientes morais, humanos muito novos, com determinadas doenças mentais, a maioria dos animais não-humanos, etc.

Vale lembrar também que todo aquele que está em condições de receber uma consequência benéfica ou maléfica da decisão dos agentes é um paciente da decisão, mesmo quando esse paciente também tenha capacidade para a agência moral (quando é um humano adulto normal, por exemplo). O inverso também é verdadeiro: pacientes morais, embora não possam ser responsabilizados pelo que fazem, podem afetar maléfica ou beneficamente outros indivíduos com o que fazem. Por exemplo, humanos adultos (agentes) e animais (pacientes) podem ser afetados por uma enchente, ou pela ação de uma criança humana que brinca com uma arma de verdade. Ainda que não faça sentido responsabilizar a natureza ou a criança pelo dano que possa causar a outros, isso não significa que, se há um agente moral que pode intervir no desenrolar dos acontecimentos, ele não deve fazer nada só porque não é um acontecimento que provém da ação de seres responsáveis. O agente moral tem a capacidade de deliberar se deve intervir ou não, então ele é responsável pelo que escolhe, mesmo quando o mal não foi primeiramente causado por ele (mas pode ter continuidade em sua omissão).

Vamos então às exigências para que estão implicadas em aceitar que a razão possui um papel a desepenhar no debate ético:

1 – Deve ser compreendido por todos os seres racionais:
Se o que procuramos é um critério objetivo, então obviamente ele precisa ser um que possa ser compreendido e aceito por qualquer agente moral (qualquer ser dotado de razão). Então, é sempre lícito perguntar: isso poderia ser aceito por qualquer ser capaz de razão independentemente de crença religiosa, cultura e época? Note que isso é diferente de dizer que em lugares e épocas diferentes existem problemas diferentes. A questão aqui é saber se exatamente o mesmo problema, nas mesmas circunstâncias, caso aparecesse em outra época ou lugar, deveria ser resolvido desta maneira.

2 – Racionalidade:
O critério anterior não indica que todos os agentes morais irão, de fato, compreender e aceitar o princípio. Significa apenas que o princípio poderia ser compreendido e aceito por todo e qualquer ser racional, independentemente de época e lugar. Como saberemos isso? Por haver uma argumentação consistente que lhe de apoio, que ela mesma não viole as leis da lógica, não caia em falácias. Por exemplo, não pode haver contradição: uma mesma decisão, nas mesmas circunstâncias, não pode ser certa e errada ao mesmo tempo. Vimos nas colunas anteriores que, por exemplo, o subjetivismo cometem esse tipo de falácia (pois a mesma decisão pode ser certa e errada ao mesmo tempo, nas mesmas circuntâncias, dependendo de quem decide).

Essa exigência também se caracteriza pelo fato do princípio ter de estar embasado numa razão, um argumento, uma justificativa que possa ser aceita por um ser racional. É essa razão que servirá como fundamento das regras. Por exemplo, a regra de que é errado matar pode estar fundada na razão de que é ruim perder uma vida que proporciona desfrute (algo que pode ser compreendido por qualquer ser racional). Exceções a essa regra podem surgir quando a razão que dava sustentação à regra não se apresenta em determinado caso (como é o caso quando um paciente terminal incurável solicita eutanásia, por exemplo).

3 – Deve poder ser universalizada:
O critério da universalidade implica que, ao tomarmos uma decisão, precisamos nos imaginar no lugar de todos aqueles envolvidos, afim de decidir qual, dentre as opções disponíveis, é realmente a melhor (uma que poderia ser aceita, independentemente da posição que fosse ocupada). Isso implica que algumas decisões podem ser contraditórias, e, com isso, eliminarem a possibilidade de serem éticas.  Por exemplo, se uma determinada busca pelo prazer ou liberdade é alcançada com o impedimento da busca do prazer ou liberdade de outros, então tal regra não pode ser universalizada, pois é ela mesma um impedimento ao que propõe.

A exigência de universalidade mostra que é possível querermos certas coisas apenas quando estamos ocupando uma posição privilegiada da situação, mas não a desejaríamos que todos a cumprissem o tempo todo, independentemente da posição que ocupássemos. É possível que eu deseje que seja correto o mais forte oprimir o mais fraco quando estou na posição de opressor, mas, basta imaginar situação semelhante, só que na posição de oprimido, ou, sem participar da situação, para logo perceber que é uma situação injusta. A exigência de universalidade se coloca para todo juízo que pretenda ser ético porque é um juízo tal que é recomendado para o cumprimento de todos; portanto, não é possível recomendar algo que só podemos aceitar quando estamos numa das posições e não em outras.

4 – Evitar apelos retóricos:
Se queremos descobrir a verdade em ética, precisamos tomar cuidado para não nos deixar levar por apelos retóricos. Exemplos clássicos desse uso são, diante do caso de alguém que assassinou os seus pais, dizer “tenham pena desse pobre órfão!”, ou “sabe quem falou que isso é certo? Jesus. Portanto, é certo”, ou ainda “Hitler foi um homem mau e era vegetariano; logo, ser vegetariano é errado”. Muitas pessoas pensam que os argumentos existem como um mero artifício para convencer os outros; já vimos na avaliação do emotivismo (coluna anterior) que, se isso estivesse correto, qualquer motivo que convencesse alguém seria uma razão ética válida, o que não é verdade. Isso não significa que as emoções não desempenhem um papel nas questões éticas; significa apenas que uma emoção que temos pode ser tanto uma resposta moral adequada quanto um preconceito, e não podemos descobrir qual das duas coisas ela é simplesmente por ser uma emoção forte.

Na próxima coluna, continuaremos com a lista de exigências formais.

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* Luciano Carlos Cunha  é Mestre em Ética e Filosofia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Licenciado em Música pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), membro do corpo editorial e colaborador da revista eletrônica Pensata Animal (www.pensataanimal.net) e autor do blog Desafiando o Especismo (www.lucianoccunha.blogspot.com).

quinta-feira, 30 de junho de 2011

É a ética subjetiva?

Boa noite, pessoal!

Antes de prosseguirmos com a postagem de hoje, volto a lembrar a reflexão que deixei na postagem intitulada "O que há de errado com o especismo???": como (com qual coerência) nós podemos respeitar a vontade que uns (os animais humanos) têm em continuar vivos e aproveitar a vida, e, ao mesmo tempo, desrespeitar essa mesma vontade em outros (os animais não-humanos sencientes que, assim como nós, também querem continuar vivos e desfrutar a vida)??? 
 
Antes de explorarmos o artigo escrito pelo Luciano Cunha sobre "Raciocínio Ético" (assunto da próxima postagem), que aborda o papel da razão na ética, segue abaixo o segundo dos dois textos introdutórios sobre os impactos da relatividade e da subjetividade na ética. 

Boa reflexão e até a próxima!!!

Abraços!

Bruno 
 
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É a ética subjetiva?
 
Por Luciano Carlos Cunha*
 

Muitas pessoas mantêm uma posição que se assemelha e ao mesmo tempo difere do relativismo moral (que refutamos na coluna anterior): o subjetivismo ético. Para essas pessoas, as questões éticas são meras disputas de opinião: “cada um tem a sua, e ninguém está certo ou errado – isso tudo é subjetivo”. Em comum com o relativismo, essa perspectiva sustenta que não há uma verdade universal em ética. Diferentemente do relativismo, o subjetivismo não diz que o certo/errado dependem da sociedade em questão, mas do que o indivíduo que mantém a opinião acha (sente). Isso evita o problema do relativismo, de não admitir reformas sociais (no subjetivismo, os indivíduos não precisam agir conforme as normas de sua sociedade ou grupo). 
Segundo o subjetivismo, quando alguém diz: “comer carne é errado!” está apenas relatando um fato sobre si mesmo (que tem um sentimento ruim quanto a comer carne), e não afirmando uma verdade sobre o ato de comer carne. Se alguém diz o oposto, “comer carne é certo!”, está também apenas relatando o sentimento que tem quanto a comer carne. Segundo essa perspectiva, não há como estabelecer a verdade em ética, ou, aliás, se a pessoa está dizendo a verdade sobre o sentimento que possui quanto a algo, então isso é toda a verdade que há.

Vale lembrar que, para o subjetivismo, todas as questões éticas se resumem à mera opinião. Não poderíamos dizer, por exemplo, que alguém que defende o nazismo ou a escravidão está errado. Se dissermos que alguém está errado em defender o nazismo, tudo o que estamos fazendo, de acordo com o subjetivismo ético, é relatando um fato sobre nossa mente (que nos sentimentos mal diante da ideia do nazismo). Assim, ao contrário de ser a perspectiva de que a ética é objetiva que pode tolerar imposições sanguinolentas por parte de pontos de vista privados, é o subjetivismo que possui enorme possibilidade disso. No subjetivismo, tudo se resume a questões de mera preferência pessoal.

Mas serão as questões éticas exatamente iguais a questões de preferência pessoal? Quando falamos de preferência pessoal, é verdade que estamos relatando algo sobre nós mesmos. Se digo que eu gosto de calor e estou sendo sincero no que digo, então é verdade que gosto de calor. Se você diz que não gosta de calor e está falando com sinceridade, então o que fala é verdade também. Há a possibilidade de as duas afirmações serem verdadeiras ao mesmo tempo, sem problema algum. Quando falamos isso, não estamos discordando: não caio em contradição se eu aceitar que tanto é verdade que eu gosto de calor quanto é verdade que você não gosta. Agora, vejamos uma questão ética: se digo que comer carne é errado, não posso dizer ao mesmo tempo que comer carne é certo. Mas, se o subjetivismo ético fosse verdadeiro, é o que teríamos de assumir. Se quando digo “comer carne é errado” estou dizendo que “eu, Luciano, tenho um sentimento negativo quanto a comer carne” (estou relatando algo sobre mim) e quando você diz o contrário está apenas relatando algo sobre você, então não estamos discordando. Como na questão de preferência pessoal, deveria ser verdade, ao mesmo tempo, que é certo comer carne, e que também é errado comer carne. Mas se é verdade que estamos discordando, então não é verdade que os juízos éticos são meros relatos sobre nós mesmos. Se fossem, não gerariam discordância, assim como não gera discordância saber que uma pessoa gosta de calor e outra não. Parece que quando alguém faz um juízo sobre comer carne (ou qualquer outro juízo ético), está falando sobre o ato de comer carne (independentemente de quem o faça), e não sobre si mesmo apenas.

Outro problema com o subjetivismo é que, se ele fosse verdadeiro, ninguém cometeria erro algum, nunca. Se os juízos éticos são meros relatos de fatos sobre como nos sentimos, então desde que estejamos realmente relatando como nos sentimos, estamos certos. Se mudarmos nossos sentimentos e mudarmos nosso julgamento, o subjetivismo ético diria que estávamos certos tanto antes quanto agora – e certos na mesma medida. Outro problema maior para o subjetivismo é o seguinte: supondo que você diga “a ética é subjetiva”, enquanto que eu digo “a ética não é subjetiva”; se estamos sendo sinceros ao relatar o que realmente achamos sobre a ética então o subjetivista não tem uma base para a dizer que a ética é realmente subjetiva, já que o outro discorda e, segundo o subjetivismo, ambas as posições são verdadeiras. Se o subjetivismo for verdadeiro, então os subjetivistas ficam sem uma base para defender que a ética é mesmo subjetiva e não objetiva.

Diante de todos esses problemas, alguns filósofos reformularam o subjetivismo e chegaram na teoria do emotivismo. O emotivismo diz que os juízos éticos não são verdadeiros nem falsos porque não exprimem fato nenhum (nem sobre verdades morais objetivas nem sobre o sentimento de quem está falando). Para o emotivismo, os juízos éticos são como tentativas de influenciar a conduta da outra pessoa para que esta faça ou deixe de fazer alguma coisa. Alguém que diz que comer carne é errado estaria, em outras palavras, dizendo “viva o veganismo!” – uma frase que não pode ser classificada nem de verdadeira nem de falsa. Assim, o emotivismo tenta consertar o problema da discordância (agora é possível dizer que discordamos porque discordamos quanto ao que desejamos que o outro faça) e o problema da infalibilidade (já que não se pode mais classificar os juízos éticos de acordo com sua veracidade/falsidade, não faz mais sentido falar em erro/acerto).

Contudo, o emotivismo não está livre de problemas graves. Um grande problema é que essa teoria assume que somos pura emoção, que não somos também dotados de razão. Quando alguém faz um julgamento ético, é sempre legítimo perguntar pelas razões que dão sustentação a tal julgamento. O emotivismo vê as razões apenas como tentativas de influenciar a conduta do outro. Portanto, desde que se consiga o efeito almejado, o emotivismo considera uma razão válida. Assim, como o filósofo James Rachels exemplifica, ao analisar a teoria: “Suponha que eu esteja tentando convencê-lo de que o Sr. Silva é uma pessoa má (…) mas você está resistindo. Sabendo que você é racista, eu digo ‘O Sr. Silva é negro’ ” (RACHELS. Elementos da Filosofia da Moral, p. 41). Se isso convencesse o interlocutor, o emotivista teria de considerar uma razão válida. Mas, obviamente, a raça de alguém não é relevante para estabelecer sua maldade, independentemente do que todas as outras pessoas do mundo pensam sobre isso. Então, por não conseguir distinguir quais razões são, de um ponto de vista ético, válidas (quais têm a ver com o assunto que está em discussão), o emotivismo também sucumbe, assim como subjetivismo e o relativismo.

A grande conclusão a partir desse ponto é então sobre a importância da razão na ética. Os que pensam não haver uma verdade objetiva em ética geralmente defendem sua perspectiva apontando que não existem fatos morais no universo físico, assim como existem fatos sobre outras coisas. Relativistas, subjetivistas e emotivistas criam então uma falsa dicotomia: “ou existem fatos éticos objetivos nas mesmas bases que existem fatos sobre o universo físico, ou então um juízo ético é sempre tão bom quanto qualquer outro”. A inexistência desses fatos não implica que a ética não seja objetiva, já que “as verdades morais são verdades da razão, ou seja, um julgamento moral é verdadeiro se respaldado por razões melhores que as alternativas” (RACHELS, Ibid, p. 42). Ainda que esses fatos não existam no universo, somos dotados de razão, e, por isso, sujeitos às mesmas regras lógicas. Isso significa que os argumentos podem ser avaliados em termos de plausibilidade. Na próxima coluna, tentarei falar um pouco sobre os métodos de raciocínio ético que visam guiar a investigação sobre como saber se um juízo é eticamente válido ou não.

Se as perspectivas relativistas/subjetivistas/emotivistas não conseguem se sustentar nem mesmo frente a alguns parágrafos de análise crítica, como é que atraem tantas pessoas? Talvez seja porque os seus defensores se veem seduzidos pela ideia óbvia de que sociedades/pessoas possuem visões morais diferentes e, precipitadamente, dão o salto para uma conclusão metaética de que não há objetividade em ética. As aparências enganam. E, como vimos, não podemos concluir que a ética é relativa/subjetiva simplesmente a partir do fato de que há discordância nos juízos morais. Algumas posições podem simplesmente estar erradas – dependendo das razões oferecidas em seu respaldo.

Finalizando, gostaria de apontar que apelar à emoção é uma tática muito usada dentro do movimento de defesa animal. Por mais que eu reconheça que os sentimentos desempenham um papel muito importante nas questões éticas (principalmente no que diz respeito à motivação para agir), penso que essa ênfase pode causar mais mal do que bem, principalmente se argumentos éticos sólidos não são apresentados conjuntamente. O interlocutor mais atento, mas que não conhece os argumentos a favor dos direitos animais,  pensará que estamos apenas querendo influenciar sua atitude, e que não estamos nem um pouco preocupados em saber se estamos realmente certos ou não. E, com relação a muitas pessoas, isso parece ser verdade: elas primeiro sentem que algo é errado, e depois buscam argumentos para sustentar a posição a todo custo. Mas, como vimos, nossos sentimentos podem ser apenas produto de nossos preconceitos (ou podem ser realmente sentimentos éticos, mas só podemos descobrir isso se fizermos uma análise racional visando eliminar possíveis preconceitos). O que quero dizer é que devemos dar mais atenção ao que a razão tem a dizer sobre as questões éticas que estamos discutindo se estamos interessados realmente em fazer o que é certo, descobrir a verdade.

 
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* Luciano Carlos Cunha  é Mestre em Ética e Filosofia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Licenciado em Música pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), membro do corpo editorial e colaborador da revista eletrônica Pensata Animal (www.pensataanimal.net) e autor do blog Desafiando o Especismo (www.lucianoccunha.blogspot.com).

terça-feira, 31 de maio de 2011

É a ética relativa?

Boa noite a todos!

Na última postagem, intitulada "O que há de errado com o especismo???" (leia aqui), deixei uma reflexão que gostaria de relembrar aqui antes de prosseguirmos: como (com qual coerência) nós podemos respeitar a vontade que uns (os animais humanos) têm em continuar vivos e aproveitar a vida, e, ao mesmo tempo, desrespeitar essa mesma vontade em outros (os animais não-humanos sencientes que, assim como nós, também querem continuar vivos e desfrutar a vida)??? 
 
Com o intuito de auxiliar tal reflexão, compartilharei, como já havia prometido, a íntegra do artigo intitulado "Raciocínio Ético", escrito pelo Luciano Cunha (que, não custa lembrar, tem mestrado na área - ética). Mas antes gostaria de fazer uma pequena introdução com dois pequenos textos (que dividirei em duas postagens), também do Luciano Cunha, sobre os impactos da relatividade e da subjetividade na ética. 
 
Segue abaixo o primeiro desses dois textos introdutórios. Boa reflexão e até a próxima!!!

Abraços!
Bruno 
 
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É a ética relativa?
 
Por Luciano Carlos Cunha*
 
Antes de discutirmos temas específicos da ética precisamos saber algo sobre a ética em si, e de que bases se deve partir para discutir questões de ética. Do contrário, corremos o risco de falar de algo que não fazemos a menor ideia do que seja. Antes de tudo, então, é preciso questionar alguns dogmas que impedem a discussão ética. Outra vantagem de discutirmos esses pontos primeiro é que eles se aplicam a qualquer questão ética, não apenas as que envolvam animais não humanos.
 
Todos que já participaram de um debate sobre alguma questão ética com certeza já escutaram (geralmente depois de vários argumentos terem sido discutidos): “Ah, mas isso tudo é relativo/subjetivo, nem adianta discutir”.  A crença de que a ética é relativa a cada sociedade ou subjetiva a cada indivíduo é amplamente difundida. Muitas  pessoas repetem essa alegação como se fosse uma verdade tão óbvia que não mereceria atenção qualquer posição que partisse do pressuposto de que a ética não é relativa ou subjetiva. Alguém que pretende defender que a ética pode ser discutida em bases objetivas certamente está, dizem eles, “tentando impor suas preferências pessoais aos outros”. Mas será que é realmente tão fácil assim sustentar essa afirmação sobre a natureza da ética (de que é relativa/subjetiva)? Com o curto espaço que possui essa coluna, pretendo mostrar que já é possível apontar inúmeros problemas graves nessas perspectivas que geralmente passam despercebidos, justamente por aquelas serem muitas vezes tomadas como “verdades óbvias”. Se o relativista/subjetivista pretende não ter a “cabeça fechada”, não pode deixar de questionar esses problemas.
 
Vejamos primeiro a perspectiva que afirma que o que é certo depende da sociedade em questão (relativismo ético). Deixaremos o subjetivismo para a próxima coluna. Quem defende essa perspectiva parte do fato verdadeiro de que há um relativismo cultural, ou seja, cada sociedade possui costumes diferentes – incluindo códigos morais diferentes. O que a tradição chinesa considera correto pode não ser o mesmo que a tradição esquimó, ou qualquer outra sociedade, por exemplo, considera. A partir desse fato, as pessoas concluem que não pode haver verdade universal em ética, pois, dizem essas pessoas, tudo o que podemos fazer é avaliar as coisas a partir do ponto de vista da sociedade na qual vivemos. Se fizermos isso, somos então considerados pelo relativista como arrogantes.
 
Mas será que, de um ponto de vista lógico, não há problema algum em concluir, a partir do fato de que culturas diferentes possuem códigos morais diferentes, que não há verdade objetiva em ética? O problema é que, mesmo que a premissa seja verdadeira (no caso, o fato de que existem códigos morais diferentes), a conclusão ainda pode ser falsa. Não podemos concluir do mero fato de que há discordância sobre um assunto, que não há verdade objetiva sobre tal assunto. Considere que discordamos sobre se tenho duas canetas na minha mochila ou uma só. Podemos concluir, desse mero fato de que há discordância, então que não existem nem duas nem uma caneta dentro da mochila? Não, porque uma das duas pessoas pode simplesmente estar enganada. Abrindo-se a mochila resolve-se esse problema. Alguém pode objetar que isso é válido para investigações sobre fatos físicos (os fatos físicos não são falsos ou verdadeiros de acordo com o que pensamos sobre eles) mas não para a ética. Mas, se for, então o argumento não pode simplesmente ser o de que há discordância na ética, já que, como vimos, o mero fato de haver discordância não é suficiente para afirmar que não há verdade objetiva sobre um assunto. Assim como no caso das canetas na mochila, é possível que na ética simplesmente algumas posições estejam erradas, mesmo que seja verdade que haja discordância. Assim, a conclusão não resulta da premissa, pois, caso haja verdade em ética, é possível que nem todos tenham conhecimento dela. Também, por outro lado, pode ser que o relativismo moral seja verdadeiro. Se for, outro argumento teria de ser endereçado que não meramente apontar o fato de que há discordância.
 
Geralmente os defensores do relativismo alegam que uma posição ética objetiva pode resultar em danos terríveis, como assassinar todos aqueles que discordam de sua posição. Contudo, além de haver o problema de que, ao afirmarem isso, abandonam o relativismo e adotam um padrão universal de julgamento (“o assassinato é ruim”), não percebem que é o relativismo que poderia tolerar práticas terrivelmente danosas. Eis algumas consequências da adoção do relativismo: (1) não poderíamos mais criticar o fato de algumas sociedades fazerem guerras, manterem escravidão, que tivesse ideais nazistas etc. Todas essas práticas seriam igualmente boas a qualquer outra; (2) não poderíamos mais questionar o código moral de nenhuma sociedade, inclusive a nossa (já que o relativismo implica que o correto é o que a sociedade afirma que é). Se o relativismo for verdadeiro, então todo código moral é perfeito; (3) se todo código moral for perfeito, então não podemos mais aprender algo com outras culturas, que, ironicamente, é umas das preocupações comuns entre muitos defensores do relativismo; (4) não poderíamos mais pensar que certas mudanças são para melhor. Não poderíamos dizer, por exemplo, que numa sociedade onde havia escravidão, e agora, todas as outras coisas continuam iguais exceto que não há escravidão, então algo melhorou – já que o relativismo diria que é um erro julgar uma prática de uma época de acordo com os padrões de outra; (5) teríamos de dizer que é sempre errado tentar mudar a sociedade em que se vive. Como o filósofo Peter Singer apontou, na crítica que faz ao ralativismo: o reformador, dentro dessa perspectiva se encontra numa posição difícil: “quando pretendem modificar as perspectivas éticas dos seus concidadãos, estão necessariamente errados; só quando conseguem conquistar a maioria da sociedade passam as suas opiniões a estar certas” (SINGER, Ética Prática, p. 14). Por isso, de acordo com o relativismo, seria correto tentar reformar nossa sociedade apenas se ela tivesse se afastando de seu código moral estabelecido. Poder-se-ia, aqui, objetar que a ética é relativa não à sociedade como um todo, mas ao grupo (classe social, por exemplo) dentro do qual alguém se insere dentro de uma sociedade. Essa mudança na definição de relativismo, embora conserte até certo ponto o problema de, aceito o relativismo, não fazer mais sentido questionar a sociedade, acaba criando o mesmo problema dentro dos grupos: aceito o relativismo de grupo, não faz mais sentido questionar as normas do grupo. Portanto, essa “solução” apenas transfere o problema para outra esfera, mas não o resolve. Assim, longe de ser uma perspectiva “cabeça aberta”, o relativismo é tudo o que um conservador extremo (seja das normas da sociedade, do grupo ou de qualquer outra coisa) gostaria para defender sua posição.
 
Outro argumento que tenta provar a validade do relativismo consiste em afirmar que todos os nossos padrões de certo/errado nada mais fazem do que refletir o código moral de nossa sociedade: “como podemos ter uma base neutra para julgar, se é assim? Mesmo se houver a verdade em ética, jamais poderemos sabê-la, então”. O problema com esse argumento é que não é verdade que todos os nossos juízos refletem o código moral de nossa sociedade. Se assim fosse, ninguém tentaria mudar nada na sociedade em que vive. Quando dizemos “a escravidão é errada”, não parece que estamos dizendo a mesma coisa que “minha sociedade condena a escravidão”; parece que estamos dizendo que a escravidão não deveria existir, independentemente do que o restante da sociedade pensa. O relativista pode objetar que as pessoas só tentam isso porque entraram em contato com outras sociedades, com padrões morais diferentes. Mas essa objeção perde, de fato que, mesmo se isso for verdade (e não temos evidências de que é), as pessoas ainda podem escolher qual código preferem seguir. E saber o que a sociedade acha que devemos fazer não ajuda. Ainda temos que tomar a decisão nós mesmos. O relativista poderia responder que as pessoas não são livres, e sim, determinadas, não podendo escolher coisa alguma. Mas aí não faria mais sentido reclamar quando elas afirmam que o relativismo não é verdadeiro.
 
O relativista ainda pode argumentar: “veja, a ética não é objetiva, dado que num contexto pode ser correto fazer algo e em outro não; pode ser errado mentir geralmente, mas não é errado mentir para enganar um terrorista e impedir que ele mate vários inocentes”. Ora, esse argumento não diz que a ética é relativa. Está apenas dizendo que às vezes as regras não cumprem o ideal a que se destinam (no caso, garantir benefício a inocentes), o que justifica quebrá-las nessas situações. Por exemplo, tal exceção à regra de mentir poderia ser justificada em qualquer sociedade, onde quer que aquele contexto aparecesse e poderia estar baseada, por exemplo, num padrão objetivo como “proteger inocentes”.
 
Quando alguém defende uma prática de uma outra sociedade apontando os benefícios que tal prática causa aos afetados por ela, então deixa de ser relativista. Se alguém defende que o infanticídio praticado por esquimós se justifica porque, apesar de tudo, essa é a saída para o problema que causa menor dano dentre todas as outras disponíveis, então não pode simplesmente dizer que alguém que é contra a mesma prática por argumentar que existe outra saída menos danosa está arrogantemente impondo os padrões de sua sociedade. Ao fazerem isso, adotam um padrão independente de julgamento, que é o benefício aos atingidos.
Assim, embora o relativismo traga a importante contribuição de colocar sob suspeita os valores de nossa sociedade (eles são um código moral entre muitos, portanto, podem estar, sob muitos aspectos, errados), apontando que aquilo que muitos sentem como verdades morais óbvias podem ser meros preconceitos culturais, isso não é o suficiente para fornecer um argumento que sustente a conclusão de que, então, a ética é relativa.
 
O relativismo parte do fato verdadeiro de que há discordância entre diferentes códigos morais de diferentes sociedades e salta para uma conclusão metaética, afirmando que a ética é relativa. Como vimos acima, o mero fato de haver discordância não é suficiente para provar essa conclusão e nenhum outro argumento é endereçado para cobrir essa lacuna. Portanto, a divergências entre diversos códigos morais não implica um relativismo ético. A ética não é relativa.

Diante dessas dificuldades, muitas pessoas abandonam o relativismo e adotam o subjetivismo ético (a visão de que o certo/errado depende não da sociedade, mas do que cada um acha). Uma análise dessa visão será o tema da próxima postagem.

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* Luciano Carlos Cunha  é Mestre em Ética e Filosofia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Licenciado em Música pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), membro do corpo editorial e colaborador da revista eletrônica Pensata Animal (www.pensataanimal.net) e autor do blog Desafiando o Especismo (www.lucianoccunha.blogspot.com).

quinta-feira, 28 de abril de 2011

O que há de errado com o especismo???

Olá a todos!

Vocês já devem ter lido no subtítulo deste blog (na parte superior desta página) que maltratar um animal, abandoná-lo, tratá-lo como objeto ou algo sem valor são alguns dos inúmeros exemplos de atitudes especistas. Creio que isso já seja suficiente para responder o que há de errado com o especismo, mas, como a proposta deste blog é explorar esse tema ao máximo, convido a todos para iniciarmos uma jornada de bastante reflexão e muitos questionamentos por aqui.

Para uma melhor definição sobre o termo especismo, volto a citar um trecho do Manifesto da Sociedade Vegana (também presente no subtítulo deste blog) sobre esse assunto: "Chamamos de especismo a discriminação contra espécie, tão arbitrária e irracional quanto o racismo e o sexismo, entre outras." Diante dessa definição, que ainda será muito explorada por aqui, pode-se afirmar que o veganismo é uma das atitudes coerentes que podemos ter para combater o especismo; na verdade, é o mínimo que podemos fazer.

Antes de continuarmos explorando a questão proposta no título desta postagem (O que há de errado com o especismo???), vale lembrar que, resumidamente, vegano (vegan, em inglês) é aquela pessoa que, por questões éticas, além de não se alimentar de carne, leite e ovos, também não consome nenhum outro produto oriundo da exploração animal (presente não somente na alimentação, mas também no entretenimento, vestuário etc.). É bom lembrar também que o veganismo (justamente por ser embasado em questões éticas, como a abolição do especismo) não se trata de um "estilo" de vida ou de dieta.

Para auxiliar na reflexão proposta aqui, farei agora uma breve contextualização do ambiente no qual comecei a me questionar sobre a ética (ou a falta dela) por trás de toda essa exploração animal (especismo) que, conforme perceberemos nas próximas postagens, se sustenta basicamente em função da cultura especista que herdamos (aquela preservada pela família, reproduzida pela escola e legitimada pelas mídias). Devo confessar que entre todos os amigos e conhecidos que conviviam comigo no dia-a-dia, nenhum deles era, sequer, vegetariano, ou seja, todos comiam carne. Quem me conhece há muito tempo, sabe bem que dificilmente havia outra pessoa que fazia tanta questão quanto eu de, diariamente, almoçar em churrascarias e jantar em pizzarias (pizzas e massas em geral). Cito isso para deixar claro que, em meio a todo esse ambiente, o fato de eu ter me tornado vegano certamente não foi por "modismo", ou seja, não foi uma atitude para me incluir num determinado grupo (muito pelo contrário, como pode ser constatado na contextualização do ambiente acima).
Obs.: ainda não fui a uma pizzaria vegana, mas sei que elas existem! Isso mesmo, as massas também podem ser preparadas sem ovos!!! Para conhecer (e preparar em casa!) algumas receitas veganas, acessem http://guiaveg.com.br/index/?cat=33

Exatamente por todo esse cenário propício à acomodação, confesso que não foi fácil começar a refletir sobre a ética (ou a falta dela) por trás dessa exploração animal. O comodismo era muito grande e, além de tudo isso que já citei, é bom lembrar que nem de verdura eu gostava. Na época eu não sabia, mas hoje sei que veg[etari]anismo não é sinônimo de herbivorismo, pois a base da dieta vegetariana é o reino vegetal, e não somente as verduras (que fazem parte do reino vegetal). A base nutricional da dieta veg[etari]ana são os cereais e leguminosas (feijões, o que inclui ervilha, lentilha, grão de bico etc.), que são alimentos de elevada densidade nutricional e com ótimo teor protéico.
Obs.: para mais informações sobre a dieta vegetariana e seu impacto na saúde, do ponto de vista médico, recomendo o livro "Vegetarianismo e Ciência" (disponível em http://livraria.folha.com.br/catalogo/1156000/vegetarianismo-e-ciencia), escrito pelo Dr. Júlio César Acosta Navarro, ph.D., cardiologista e especialista em nutrologia, que defende que a dieta vegetariana é benéfica e segura para todas as fases da vida. Esse livro foi fruto de um extenso período de estudos e da revisão de mais de 2.000 artigos científicos. Aproveito para compartilhar também o link para uma excelente entrevista concedida à Livraria da Folha por outro médico, o Dr. Eric Slywitch, nutrólogo especializado em dietas vegetarianas (entre outras dúvidas, o médico mostra quais os passos a serem seguidos por quem deseja mudar sua alimentação, como os pais devem agir com seus filhos quando estes decidem ser vegetarianos e como alimentar um bebê com esta dieta): http://www1.folha.uol.com.br/livrariadafolha/837717-soja-e-desnecessaria-para-o-vegetariano-diz-especialista-eric-slywitch.shtml

Então, diante de tamanho comodismo, como é que eu fui começar a refletir sobre isso? Foi a convivência com um animal de outra espécie que me instigou a pensar sobre o assunto, dando início à seguinte reflexão: "Em relação aos animais das outras espécies (os não-humanos), como (com qual coerência) eu posso amar uns e ser cúmplice da exploração dos outros, indiretamente escravizando-os e torturando-os até a morte, pra depois usá-los para alimentação, vestuário etc.???"
Obs.: sobre essa exploração animal (animais em processamento enquanto ainda conscientes, confinados a ponto de neurotizarem e se auto-mutilarem, enxertados com componentes ou substâncias sem analgesia etc.), gostaria de compartilhar o link para um vídeo intitulado "Paredes de vidro", narrado por sir Paul McCartney que, entre uma e outra revelação chocante a respeito do constante sofrimento a que estão sujeitos os animais explorados pela indústria de carne, ovos, leite etc., afirma: “Se os matadouros tivessem paredes de vidro, todos seriam veg[etari]anos." Eis o link para para o vídeo (contém cenas fortes): http://www.youtube.com/user/MrBclpinheiro?feature=mhum#p/a/f/0/FgavacZ_47Q. Recomendo esse pequeno vídeo, pois isso evitará que corramos o risco de ter que explicar a nossos netos como era possível estar havendo um verdadeiro holocausto com os animais e nós não sabermos de nada.

Enfim, em relação a essa reflexão inicial, devo admitir que não havia coerência alguma em minha atitude. E refletindo ainda mais sobre isso, cheguei à seguinte questão: como (com qual coerência) eu posso respeitar a vontade que uns (os animais humanos) têm em continuar vivos e aproveitar a vida, e, ao mesmo tempo, desrespeitar essa mesma vontade em outros (os animais não-humanos sencientes que, assim como nós, também querem continuar vivos e desfrutar a vida)???
Obs.: sobre a senciência dos animais, segue link para a reportagem de capa da revista superinteressante do mês passado (março/2011), cuja própria capa afirma: "A ciência começa a descobrir que sim, os animais também são gente. Eles se apaixonam, fazem planos para o futuro, sentem saudade, tecem intrigas e enganam você." Minha filhotinha Amora, por exemplo, me engana direto, simulando o choro de um bebê quando quer algo (rsrs)! Eis o link para a reportagem: http://super.abril.com.br/ciencia/estudos-mostram-passa-pela-cabeca-animais-623040.shtml 

É exatamente esta reflexão que eu gostaria de propor inicialmente neste blog:
como (com qual coerência) nós podemos respeitar a vontade que uns (os animais humanos) têm em continuar vivos e aproveitar a vida, e, ao mesmo tempo, desrespeitar essa mesma vontade em outros (os animais não-humanos sencientes que, assim como nós, também querem continuar vivos e desfrutar a vida)???

Com o intuito de auxiliar tal reflexão, compartilharei nas próximas postagens a íntegra do artigo intitulado "Raciocínio Ético", escrito pelo Luciano Cunha que, não custa lembrar, tem mestrado na área (ética). Lembro também que o próprio Luciano já se manifestou na seção "comentários" do último post, se colocando à disposição para quaisquer questionamentos acerca do assunto abordado nesse seu artigo.

Boa reflexão e até a próxima!!!


Abraços!
Bruno

quinta-feira, 31 de março de 2011

Raciocínio Ético (inauguração oficial)

Boa noite a todos!

Sejam todos bem-vindos a este espaço de reflexão. Inicialmente, devo informar que escreverei por aqui, no máximo, duas vezes por mês, para termos tempo de aproveitar a reflexão proposta e debatermos na seção "comentários" (localizada abaixo de cada postagem). Aproveito para pedir àqueles que se interessarem pela proposta deste blog que cadastrem seus e-mails para serem notificados quando novas postagens forem feitas. Esse cadastro pode ser feito pelo campo "
cadastre seu e-mail (newsletter)", localizado na coluna da direita, abaixo do link "Google Tradutor".

Será uma honra poder debater com vocês sobre um importante assunto que o senso comum nos impõe: a exploração animal. A intenção aqui é questionar esse senso comum, antes mesmo de aceitá-lo ou rejeitá-lo "automaticamente" (em função de hábitos herdados).


Sei que alguns ridicularizam este Movimento pela Aboliçao do Especismo, mas compreendo, pois sei que, historicamente, é constatado que todos os grandes movimentos passam por três momentos: ridicularização, debate e adoção (ou rejeição, se não houver razões válidas).

Espero que possamos dar início ao estágio do debate por aqui, superando essa fase inicial da ridicularização. Dessa forma, c
onvido-os para refletirmos juntos nesse espaço democrático, onde todas as opiniões serão bem-vindas (exceto as que contenham palavras de baixo calão).

Nas próximas postagens, apresentarei as razões que guiam este movimento e espero explorá-las ao máximo com a ajuda de vocês.
Conto com a presença de vocês para crescermos cada vez mais uns com os outros. Tudo por um mundo melhor e mais justo para todos.

Por ora, e com o intuito de termos debates mais produtivos posteriormente (baseados em argumentos racionalmente válidos), deixo aqui o link para um artigo intitulado "Raciocínio Ético", escrito pelo Mestre em Ética, Luciano Cunha: http://lucianoccunha.blogspot.com/2010/08/raciocinio-etico-forma-parte-1.html . Esse é o link para a primeira parte do artigo, que está dividido em sete partes
. Acessando esse link, as partes seguintes também podem ser acessadas clicando nos ícones localizados na parte inferior da página, ao final do artigo.

Peço àqueles que estiverem dispostos a refletir, que leiam esse artigo acima com bastante atenção, pois ele é muito importante para mantermos um debate produtivo. Estarei por aqui aguardando possíveis questionamentos acerca do tema
(raciocínio ético) abordado nesse artigo. Aliás, convidei seu próprio autor (o Luciano Cunha) para estar conosco neste momento inicial.



Abraços a todos e boa reflexão!
Bruno

P.S.: "Muito pouco da grande crueldade mostrada pelos homens pode ser atribuída realmente a um instinto cruel.  A maior parte dela é resultado da falta de reflexão ou de hábitos herdados."
Albert Schweitzer (teólogo, músico, filósofo e médico alemão), que viveu no início do século passado e extasiou o mundo com seu trabalho, recebendo, em 1952, o Prêmio Nobel da Paz.

terça-feira, 22 de março de 2011

Boas-vindas!!!

Lanço agora a "pedra fundamental" deste blog - Questionando o Especismo - que busca questionar o ESPECISMO de uma forma filosófica (científica), por meio do raciocínio crítico.

A inauguração oficial do blog está prevista para o dia 01/04/2011 (sexta-feira da próxima semana).

Conto com vocês para refletirmos juntos acerca desse assunto.


Abraços,
Bruno Pinheiro